Uma das maiores chances de evitar infartos e AVCs no país não depende de uma molécula inédita nem de uma tecnologia cara. Ela começa alguns passos antes, em um gesto de poucos minutos que quase ninguém executa com o cuidado necessário: medir a pressão com um aparelho confiável e uma técnica capaz de entregar o número certo.
A dimensão dessa lacuna está no Relatório Global sobre Hipertensão 2025, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento estima que 1,4 bilhão de adultos entre 30 e 79 anos conviviam com a doença em 2024 —o dobro de 1990. Desses, cerca de 600 milhões ainda não haviam sido diagnosticados, e apenas 320 milhões, algo em torno de 23%, mantinham a pressão sob controle.
No Brasil, o levantamento calcula 55,7 milhões de adultos nessa faixa com pressão alta, uma prevalência de 46% —acima da média mundial, de 34%. Ainda que 71% já saibam do diagnóstico e 66% façam algum tratamento, só 38% têm a doença efetivamente controlada. São cerca de 34,5 milhões de brasileiros com a pressão acima da meta.
O relatório não sugere que aparelhos substituam medicamentos, nem que novas terapias sejam dispensáveis. O que ele escancara é uma sequência que ainda falha em larga escala: sem uma medida confiável, não há diagnóstico; sem diagnóstico, o tratamento não começa; e, sem novas medidas ao longo do tempo, ninguém sabe se ele está funcionando.
“Não dá para tratar o que não se enxerga. Os remédios eficazes já existem e são conhecidos há décadas; o que falta é chegar até quem precisa deles e ainda nem sabe que corre risco”, resume Erika Campana, cardiologista, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
A explicação ajuda a entender por que acertar na medida pode ter um efeito populacional maior e mais rápido do que esperar pela próxima inovação.
O relatório lista cinco classes de medicamentos considerados essenciais contra a hipertensão, em geral eficazes e de baixo custo, disponíveis em 93% dos países de renda alta. O arsenal, em boa parte, já está posto. O desafio é encontrar quem precisa dele, garantir o acesso e acompanhar o resultado ao longo dos anos.
Uma doença que não avisa
A hipertensão é a elevação persistente da pressão que o sangue exerce sobre as paredes das artérias. Na maioria das vezes, não provoca sintoma algum: a pessoa pode passar anos com os números altos sem dor de cabeça, tontura ou qualquer sinal que a leve ao consultório.
Enquanto isso, o coração trabalha mais para empurrar o sangue contra uma resistência maior. Com o tempo, esse esforço extra engrossa o músculo cardíaco, endurece os vasos e vai lesando órgãos como cérebro e rins.
Ricardo Kazunori, cirurgião cardiovascular da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, recorre a uma imagem para explicar: é como tentar abrir uma porta enquanto várias pessoas a empurram do outro lado. Para vencer, é preciso fazer mais força —e, no corpo, quem faz essa força é o coração.
O risco não está apenas nos valores muito altos. Elevações moderadas, sustentadas por anos, também acumulam dano. E há uma armadilha frequente, observa Kazunori: o paciente toma o anti-hipertensivo, não sente nada e conclui que está tudo resolvido, sem voltar a medir para confirmar.
“Quem começa cedo costuma controlar a pressão com mudanças no estilo de vida ou com um remédio só. Quem deixa para depois pode chegar precisando de três ou quatro medicamentos, e já com lesões nos vasos e no coração”, diz o cirurgião.
A pressão alta sem controle aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC), infarto, insuficiência cardíaca, doença renal crônica e demência. Para uma parcela dos pacientes, a primeira manifestação perceptível da doença já é uma dessas complicações —o que explica a insistência dos médicos em procurá-la antes que ela se anuncie por conta própria.
Um erro de poucos minutos
Aferir a pressão parece trivial, mas o resultado depende de uma série de condições. A braçadeira pode ser pequena demais para o braço; a pessoa pode ter subido uma escada instantes antes, estar com as pernas cruzadas ou com o braço pendurado; o próprio aparelho pode nunca ter passado por um teste que comprove sua precisão.
Cada um desses fatores desloca o número que aparece no visor, e o estrago pode ir para os dois lados.
Quando a leitura sai artificialmente alta, alguém sem hipertensão pode receber um diagnóstico falso, passar a tomar um remédio de que não precisa e conviver com tontura, fraqueza e quedas de pressão.
Quando o valor aparece abaixo do real, o efeito é uma falsa sensação de segurança: a doença segue sem tratamento, ou o médico conclui, por engano, que a dose prescrita já foi suficiente.
“A medida da pressão é a bússola que orienta todas as decisões seguintes. Quando ela aponta errado, corre-se o risco tanto de tratar demais quanto de deixar sem proteção quem já está em perigo”, afirma Erika.
O que separa um bom aparelho de um número enganoso
Não basta o equipamento ligar, inflar a braçadeira e mostrar um número. Um aparelho clinicamente validado é aquele que passou por testes padronizados e provou entregar resultados próximos aos de um método de referência —o chamado padrão-ouro.
A OMS recomenda adotar aparelhos automáticos validados nos programas de controle da hipertensão justamente porque eles reduzem falhas comuns da medição manual, como a dificuldade de ouvir os sons da artéria, a velocidade inadequada ao esvaziar a braçadeira e a tendência a arredondar o número final.
Isso não torna todo aparelho digital confiável. A validação vale para o modelo específico, e não para a marca inteira: equipamentos que nunca passaram por teste clínico, dispositivos descalibrados ou braçadeiras incompatíveis com o tamanho do braço podem errar mesmo parecendo funcionar bem.
No Brasil, o selo do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e as listas de modelos aprovados mantidas por sociedades médicas ajudam o consumidor a checar antes de comprar.
O relatório alerta ainda que boa parte dos aparelhos vendidos em farmácias e pela internet é antiga ou nunca passou por validação clínica. E relógios inteligentes e outros dispositivos de pulso, ainda que úteis para contar passos ou acompanhar o sono, não devem orientar diagnóstico, ajuste de dose ou interrupção de medicamento, a menos que o modelo tenha validação específica para medir pressão.
A pressão não cabe em uma única leitura
A pressão arterial muda ao longo do dia. Sono, estresse, dor, esforço físico, temperatura, alimentação e alguns medicamentos alteram os valores, e uma medida de consultório registra apenas aquele instante.
Por isso, um número alto isolado quase nunca fecha um diagnóstico. A OMS define a hipertensão, em adultos, como pressão sistólica igual ou superior a 140 mmHg e/ou diastólica igual ou superior a 90 mmHg —o conhecido “14 por 9”— verificada em dois dias diferentes. A sistólica, o primeiro número, é a pressão no momento em que o coração se contrai para lançar o sangue nas artérias; a diastólica, o segundo, é a que se mantém entre um batimento e outro.
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, do Ministério da Saúde, também prevê medidas repetidas antes de confirmar a doença. O número de consultas e o intervalo entre elas variam conforme os valores encontrados, o risco cardiovascular e a presença de lesões em órgãos.
Quando as medidas do consultório não batem com o histórico do paciente ou com o que ele registra em casa, o médico pode recorrer a dois exames. A monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) acompanha os valores por 24 horas, inclusive durante o sono; a monitorização residencial da pressão arterial (MRPA) reúne leituras feitas em casa ao longo de vários dias, em horários e condições definidos.
“A medida de consultório é uma fotografia de um instante. O MAPA e a MRPA mostram o filme: como a pressão se comporta ao longo do dia e da noite”, compara a cardiologista.
Os dois exames ajudam a flagrar situações que passariam despercebidas em uma consulta isolada.
Na hipertensão do avental branco, a pressão sobe diante do médico por conta do estresse ou da ansiedade, mas se mantém normal no resto do dia; sem confirmação, o paciente pode acabar medicado sem necessidade.
Na hipertensão mascarada acontece o contrário, e é o cenário que mais preocupa os cardiologistas: a leitura parece normal no consultório, mas os níveis ficam altos em casa, no trabalho ou durante o sono. Como o resultado transmite segurança, a pessoa segue sem tratamento enquanto coração, rins e vasos continuam sob pressão. A suspeita cresce, por exemplo, quando já há alterações cardíacas ou renais que não combinam com os números vistos nas consultas.
Como medir sem distorcer o resultado
Antes de tudo, vale conferir se o aparelho é adequado e se a braçadeira corresponde à circunferência do braço —um manguito apertado tende a superestimar a pressão, e um folgado, a subestimá-la. A partir daí, alguns cuidados fazem diferença no número final:
- não fumar, beber álcool, tomar café ou se exercitar nos 30 minutos anteriores;
- esvaziar a bexiga antes de medir;
- permanecer sentado, em repouso, por três a cinco minutos;
- apoiar as costas na cadeira e manter os pés no chão, sem cruzar as pernas;
- deixar o braço apoiado, na altura do coração;
- colocar a braçadeira sobre a pele, sem roupa por baixo;
- não conversar durante a medição;
- repetir a leitura conforme a orientação do profissional.
Na primeira avaliação, o ideal é medir nos dois braços; havendo diferença que se repete, o médico investiga a causa e define qual deles usar no acompanhamento.
E há uma regra que os especialistas repetem: ninguém deve aumentar, reduzir ou suspender remédio por causa de uma leitura isolada. Valores que se repetem precisam ser anotados e levados ao profissional que acompanha o caso.
Quem precisa medir, e com que frequência
Todo adulto entra na conta. O protocolo do Ministério da Saúde recomenda rastrear a pressão de qualquer pessoa a partir dos 18 anos que ainda não tenha diagnóstico, com duas medidas por consulta —de novo, porque a doença costuma não dar sinais.
A OMS reforça a lógica ao lembrar que é na faixa dos 30 aos 79 anos que se concentra o 1,4 bilhão de hipertensos no mundo.






























