Especialistas do Fórum de Políticas da América Latina defendem que a equidade deixe de ser um princípio abstrato e passe a orientar, de forma prática, a seleção, avaliação, recomendação e implementação de tecnologias em saúde
A integração da equidade nos processos de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) foi o tema central do painel “Integrating Equity into Health Technology Assessment: Lessons from the Latin America Policy Forum”, realizado durante o Congresso HTAi 2026 — Health Technology Assessment international, que aconteceu entre os dias 6 e 10 de junho de 2026, em Istambul, na Turquia.
Inserido na trilha Policy & Impact of HTA, o debate reuniu especialistas ligados ao Fórum de Políticas da América Latina da HTAi para discutir como transformar a equidade em um componente concreto das decisões em saúde. A mensagem central foi clara: em uma região marcada por desigualdades históricas de acesso, proteção financeira e resultados em saúde, a equidade não pode ser tratada como um complemento ao final da avaliação. Ela precisa estar presente desde o início do processo de ATS.
A sessão foi conduzida por Vania Canuto, que contextualizou o papel do Fórum de Políticas da América Latina como espaço de diálogo entre gestores, pesquisadores, representantes da indústria, pagadores e vozes de pacientes. Segundo a moderação, o encontro regional tem funcionado como uma plataforma de construção de consensos e de reflexão sobre políticas públicas capazes de responder à realidade latino-americana.
O primeiro eixo do painel foi apresentado por Sebastián García Martí, do IECS — Instituto de Efectividad Clínica y Sanitaria, da Argentina. Ele compartilhou os aprendizados do Fórum de Políticas da América Latina e destacou que, embora a equidade seja amplamente reconhecida como prioridade, sua incorporação nos processos formais de ATS ainda é limitada. Entre as principais barreiras apontadas estão a falta de dados desagregados, a ausência de diretrizes metodológicas, a fragmentação dos sistemas de saúde e a limitação de capacidade técnica em diferentes países.
García Martí apresentou uma proposta prática para orientar a tomada de decisão, com perguntas que podem ser aplicadas em diferentes fases da ATS — da seleção de temas ao escopo, análise de evidências, recomendação e implementação. Entre os pontos discutidos, o painel destacou a necessidade de identificar grupos sistematicamente desfavorecidos, avaliar se a efetividade de uma tecnologia pode variar entre populações vulneráveis e considerar se a recomendação pode reduzir ou aprofundar desigualdades já existentes.
Na perspectiva dos pacientes, Eva María Ruiz de Castilla defendeu que a equidade deve ser entendida como um padrão de qualidade da decisão em ATS. Para ela, a participação dos pacientes não serve apenas para “complementar” dados técnicos, mas para testar se uma decisão é legítima, justa e aplicável na vida real. A painelista reforçou que muitos pacientes chegam ao processo de avaliação já invisibilizados por barreiras anteriores, como atraso diagnóstico, ausência de especialistas, falta de exames, dificuldades econômicas e lacunas nos registros de saúde.
A contribuição da paciente, segundo Ruiz de Castilla, ajuda a revelar se uma recomendação será de fato capaz de gerar acesso. Ela ressaltou que, quando a equidade aparece apenas no fim do processo, o sistema tenta reparar uma exclusão que já aconteceu. Por isso, a defesa apresentada no painel foi pela incorporação da experiência vivida desde as etapas iniciais da avaliação, especialmente em contextos onde a falta de dados formais torna ainda mais difícil reconhecer populações vulneráveis.
A perspectiva da indústria e das doenças raras foi apresentada pela Dra. Alicia Granados, da Sanofi. Em sua exposição, ela destacou que pacientes com doenças raras vivem uma forma de iniquidade estrutural, marcada por longos períodos até o diagnóstico, sub-representação em bases de dados, baixa disponibilidade de especialistas e elevado impacto financeiro para famílias e sistemas de saúde.
Granados chamou atenção para o que classificou como um paradoxo da ATS aplicada às doenças raras: justamente por envolverem populações pequenas, evidências limitadas e maior incerteza, essas tecnologias tendem a enfrentar barreiras mais rígidas nos modelos tradicionais de avaliação. Na prática, alertou, os pacientes mais vulneráveis podem ser penalizados pela própria raridade de suas condições.

A painelista defendeu que os processos de ATS considerem explicitamente a severidade, a raridade, a totalidade das evidências disponíveis, os dados de mundo real e impactos que vão além dos desfechos clínicos tradicionais, incluindo efeitos sobre cuidadores, famílias e vida cotidiana. Também destacou a importância de colaboração regional, especialmente porque nenhum país, isoladamente, consegue produzir evidências suficientes para todas as doenças raras.
Durante o debate com a audiência, participantes levantaram questões sobre como definir subgrupos em situação de desvantagem, como adaptar indicadores utilizados em outros contextos — como ruralidade, tempo de deslocamento e índices de privação social — para a realidade latino-americana, e como lidar com a escassez de dados desagregados. Também foram discutidos os desafios de priorização de tecnologias, o uso de métodos multicritério e o custo de oportunidade em sistemas de saúde com recursos limitados.
O painel reconheceu que decisões sobre cobertura de tecnologias de alto custo, especialmente em doenças raras, exigem equilíbrio entre equidade, sustentabilidade e transparência. Ao mesmo tempo, os especialistas defenderam que o impacto orçamentário não pode ser analisado de forma isolada, sem considerar o grau de vulnerabilidade das populações afetadas e as consequências de negar ou atrasar o acesso.
Ao final, a discussão apontou para um consenso: incorporar equidade na ATS exige mais do que boa intenção. É necessário desenvolver metodologias, padronizar perguntas, fortalecer a coleta de dados, ampliar a participação social e criar mecanismos regionais de colaboração. Para os painelistas, a equidade deve funcionar como uma lente permanente sobre todo o processo decisório, ajudando a garantir que a inovação em saúde não aprofunde desigualdades, mas contribua para reduzi-las.
O debate realizado no HTAi 2026 reforçou que a ATS, quando orientada por evidências e sensível às desigualdades, pode ser mais do que uma ferramenta técnica de avaliação. Pode se tornar uma estratégia de transformação dos sistemas de saúde, aproximando decisões públicas da realidade de pacientes que, muitas vezes, ainda permanecem invisíveis nos dados, nos protocolos e nas políticas de acesso.
Sobre a HTAi
A Health Technology Assessment international (HTAi) é uma sociedade científica e profissional global dedicada ao fortalecimento da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). A organização reúne pesquisadores, agências de ATS, gestores, formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, indústria, pacientes e cidadãos, promovendo a troca internacional de conhecimento e experiências para apoiar decisões em saúde baseadas em evidências, com foco em inovação, sustentabilidade, equidade e impacto na vida das pessoas.
Programa oficial do HTAi 2026:
https://htai.eventsair.com/htai-2026-istanbul-annual-meeting/program-agenda
Declaração de transparência: Priscila Torres, jornalista, coordenadora de advocacy da BioRed Brasil e do Grupar-BR, e autora do Blog Artrite Reumatoide, participou do HTAi 2026, em Istambul, a convite da Sun Pharma Brasil. Esta reportagem reflete sua análise jornalística independente sobre os debates acompanhados durante o evento.































