Nós estamos acostumados a ouvir todo tipo de comentário absurdo sobre as nossas doenças, mas é óbvio que não deixa de incomodar. E isso não acontece apenas sob o anonimato da internet: precisamos lidar com opiniões infundadas e sugestões de tratamento o tempo inteiro no dia a dia.
Por causa disso, eu parei de comentar sobre o que eu tenho com as pessoas, preferindo fingir que estou sempre bem.
Também nesta semana, meu pai me encaminhou um vídeo de um suposto professor “curando” as dores de uma paciente em apenas uma sessão. Não vou mencionar o nome do charlatão e muito menos destrinchar o seu “método infalível”, porque de fake news sobre cura de dores já estamos bem servidos.
Talvez não tenha sido uma boa ideia assistir ao vídeo nem ler os comentários do post, mas sinto que é uma forma de identificar os mitos e crenças que a sociedade insiste em reproduzir sobre pessoas com dores crônicas (e também sair um pouco da bolha). Sabemos que, na internet, todos se sentem no direito de falar o que quiserem, ainda que não tenham o menor conhecimento sobre o que estão dizendo.
No auge da irritação, respondi para a moça que muitas doenças crônicas não têm cura, e que as causas da dor crônica não são estritamente emocionais, mas envolvem uma série de fatores biológicos, culturais, sociais e psicológicos. Quem estuda o tema sabe que é cientificamente comprovado que uma dor persistente envolve modificações no cérebro e que, apesar de ser fortemente influenciada pelas emoções, não se resume a elas.
Inclusive, esse papinho furado de “quem acredita sempre alcança” foi o que mais me prejudicou no início do meu caminho com a dor crônica. No primeiro ano, eu buscava desesperadamente algo que pudesse me curar, e achava que toda a responsabilidade de encontrar essa resposta estava nas minhas mãos. Eu me sentia fracassada o tempo inteiro, porque ouvia histórias de pessoas que melhoraram com técnicas que simplesmente não funcionavam para mim. A culpa era toda minha.
Eu achava que não poderia sobreviver por muito mais tempo com dores tão fortes e me sentindo tão deprimida. Foram muitos anos lutando contra a doença com todas as minhas forças, como se eu pudesse arrancá-la com as minhas mãos.
Com isso, não estou dizendo que não sinto tristeza e raiva, nem que as dores não existem mais. Me reconheço como uma paciente de dor crônica, e sei que a doença é feita de momentos felizes e períodos de crises muito difíceis. O que muda, acredito eu, é o jeito de encará-las — agora sem a necessidade de me livrar delas a todo custo, e com a certeza de que dias melhores virão.
Larissa Teixeira (@dadoreoutrosdemonios) é jornalista formada pela USP. Escreve sobre dor crônica, doença com a qual convive há cinco anos, nesta coluna em VivaBem
Fonte: UOL.































