Caracterizada por níveis extremamente elevados do colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL-c) no sangue desde a infância, a Hipercolesterolemia Familiar (HF) é uma doença genética e hereditária que aumenta significativamente o risco de eventos cardiovasculares graves e precoces, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC). Com o objetivo de ampliar a conscientização sobre a doença e reforçar a importância do diagnóstico precoce, em 24 de setembro é celebrado o Dia Mundial da Hipercolesterolemia Familiar
A condição é causada por mutações genéticas, principalmente na via do receptor de LDL no fígado, que comprometem o mecanismo natural responsável por remover o colesterol da corrente sanguínea. Sem a intervenção terapêutica adequada, o acúmulo progressivo de gordura nas paredes arteriais (aterosclerose) ocorre de forma acelerada, podendo resultar em complicações cardíacas já em adultos jovens e, nas formas mais graves, até mesmo durante a infância ou adolescência, explica o endocrinologista e metabologista Dr. Rodrigo de Oliveira Moreira, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) entre 2019 e 2020.
Genética x estilo de vida: por que só a dieta não é suficiente?
Uma das principais barreiras na identificação da HF é a confusão com o colesterol elevado decorrente de hábitos de vida, como má alimentação e sedentarismo. Segundo Moreira, embora o estilo de vida saudável seja indispensável, ele é insuficiente para controlar a condição.
“Ter uma alimentação saudável e praticar atividades físicas é essencial no manejo global da saúde, mas, na hipercolesterolemia familiar, essas medidas isoladas não conseguem normalizar os níveis de colesterol. Por se tratar de uma alteração genética presente desde o nascimento, a imensa maioria dos pacientes necessitará de tratamento medicação específico, que deve ser iniciado o mais precocemente possível”, esclarece o médico.
Heterozigótica x Homozigótica: a gravidade das formas da doença
A HF é uma doença de herança autossômica dominante que se manifesta de duas formas principais:
- HF Heterozigótica (HFHe): É a mais comum, herdada de apenas um dos pais. Embora seja frequente na população, ainda enfrenta grandes desafios de subdiagnóstico.
- HF Homozigótica (HFHo): Extremamente rara e grave, ocorre quando a alteração genética é herdada de ambos os genitores. Nesses casos, os níveis de LDL-c são drasticamente elevados e os pacientes correm o risco de desenvolver doenças cardiovasculares graves ainda na infância ou adolescência.
“Não se trata apenas um paciente, trata-se uma família”
O subdiagnóstico continua sendo um dos maiores obstáculos no combate às complicações da HF. Sinais físicos como xantomas, que são os depósitos de gordura na pele ou tendões, xantelasmas e arco corneano podem estar presentes, mas a suspeita clínica surge principalmente pelo histórico familiar de infartos ou cirurgias cardíacas precoces (antes dos 60 anos). Ao identificar um caso suspeito ou confirmado, entra em ação a triagem em cascata, estratégia fundamental para diagnosticar outros parentes afetadosi.
“Quem trata pacientes com hipercolesterolemia familiar não tem apenas um paciente, tem sempre uma família. Como é uma condição autossômica dominante, ao diagnosticar um indivíduo, é preciso rastrear seus pais, irmãos e filhos. A triagem em cascata permite ampliar o número de diagnósticos e disponibilizar o tratamento adequado preventivamente, antes que ocorra um evento cardíaco”, reforça o especialista.
Avanços no tratamento e novas perspectivas
O objetivo primário do tratamento da HF é reduzir expressivamente as taxas de LDL no sangue para prevenir a formação de placas de aterosclerose e evitar o infarto.
Nas últimas décadas, a medicina evoluiu consideravelmente nas opções terapêuticas. Além das estatinas (primeira linha de tratamento)ii e da ezetimiba, o arsenal atual conta com opções modernas como o ácido bempedoico, os inibidores de PCSK9 e as drogas que inibem a produção de PCSK9. A combinação dessas terapias permite reduções expressivas do colesterol sérico.
Para os casos mais severos, como a hipercolesterolemia familiar homozigótica (HFHo), em que a via do receptor de LDL costuma estar inativa ou gravemente comprometida, surgiram terapias de alta tecnologia, como os inibidores da proteína de transferência microssomal de triglicerídeos (MTP).
“Hoje, conseguimos combinar diferentes mecanismos de ação e atingir reduções de 80% a 90% nos níveis de colesterol, algo impensável há duas décadas. Se a família tem histórico de infarto jovem, o ideal é procurar um endocrinologista ou cardiologista. A HF não tem cura, mas tem controle e tratamento eficazes para garantir uma vida longa e saudável”, finaliza Moreira.
Fonte: Assessoria de Imprensa.






























