Todo verão brasileiro traz um cenário que se repete: calor intenso, chuvas frequentes e aumento expressivo de doenças transmitidas por mosquitos. Esse ambiente favorece a proliferação do Aedes aegypti, inseto responsável pela transmissão das chamadas arboviroses, infecções virais que se disseminam com mais facilidade nessa época do ano, quando a água parada e as altas temperaturas o ciclo do vetor.
Além da dengue e da chikungunya, outras arboviroses também circulam no país, como o zika vírus, a febre amarela e o Mayaro, cada uma com características próprias e impactos distintos sobre a saúde.
Nem todas, porém, apresentam o mesmo peso epidemiológico.
No Brasil, dengue e chikungunya se destacam pelo elevado número de casos registrados ano após ano e pelas repercussões clínicas que provocam, configurando um problema recorrente de saúde pública.
Quando se fala em arboviroses, a imagem mais comum ainda é a de uma infecção aguda, marcada por febre, mal-estar e alguns dias de repouso.
No entanto, essas doenças também costumam afetar músculos e articulações, um aspecto frequentemente subestimado, mas com grande impacto na qualidade de vida. Dores no corpo, rigidez articular e
para se movimentar fazem parte do quadro de muitas dessas infecções. Em alguns casos, o desconforto é intenso, limitando atividades simples do dia a dia, como caminhar, trabalhar ou dormir bem.
Nesse ponto, as arboviroses deixam de ser apenas um problema infeccioso e passam a ter relevância também para a saúde musculoesquelética.
Do ponto de vista médico, compreender como essas infecções repercutem nas articulações permite diferenciar situações em que a dor é transitória daquelas em que podem surgir consequências mais
algo que varia conforme o vírus envolvido.
A dengue é conhecida popularmente como uma infecção que “quebra o corpo”, e essa fama não é por acaso.
Durante a fase aguda da doença, é comum a presença de dores musculares e articulares intensas, que surgem de forma abrupta. Apesar da intensidade, a dor articular associada à dengue costuma
acompanhar o curso da infecção e melhora à medida que o quadro agudo se resolve.
Na maioria das vezes, trata-se de um fenômeno transitório, relacionado à resposta inflamatória do organismo, e não de uma doença articular persistente.
Essa distinção é fundamental.
Embora a dengue provoque sofrimento significativo no período agudo, raramente evolui com sequelas articulares duradouras.
Reconhecer esse padrão ajuda a evitar confusões diagnósticas e reforça a importância de diferenciá-la de outras arboviroses com impacto mais prolongado sobre as articulações.
Diferentemente da dengue, a chikungunya apresenta uma relação muito mais estreita com o comprometimento articular.
A persistência dos sintomas torna a chikungunya um desafio particular para a saúde das articulações.
Na prática clínica, reumatologistas acompanham pacientes que, meses após a infecção, ainda convivem com dor, fadiga e dificuldade para retomar suas atividades habituais.
Esse risco de cronificação diferencia a chikungunya da maioria das outras arboviroses e explica por que sua prevenção tem implicações que vão muito além do controle da fase aguda.
Diante desse cenário, evitar a infecção significa não apenas reduzir o risco de febre e complicações imediatas, mas também proteger a saúde das articulações. No caso da chikungunya, prevenir novos
casos é uma estratégia direta para diminuir o número de pessoas que poderão desenvolver dor persistente ou inflamação crônica, com repercussões a longo prazo.
Atualmente, o Brasil dispõe de vacinas contra a dengue aprovadas para faixas etárias específicas.
De forma geral, são indicadas para crianças, adolescentes e adultos até cerca de 60 anos, não sendo recomendadas, neste momento, para pessoas mais idosas.
Essa definição baseia-se nos grupos avaliados nos estudos clínicos e nos dados disponíveis de segurança e eficácia.
Essas vacinas têm se mostrado seguras, com efeitos adversos geralmente leves e passageiros, como dor no local da aplicação, febre baixa ou mal-estar temporário.
Demonstram ainda eficácia na redução do risco de infecção e, sobretudo, na diminuição da gravidade da doença.
Vale ressaltar que não são indicadas para pessoas com imunossupressão ou em uso de medicamentos que reduzem a imunidade, conforme estabelecido em bula.
Do ponto de vista da reumatologia, as arboviroses não se encerram necessariamente quando a febre desaparece.
Enquanto muitas pessoas se recuperam completamente, outras seguem convivendo com dor, limitação funcional e impacto importante na qualidade de vida, especialmente nos quadros associados à chikungunya.
Cuidar da saúde das articulações não significa apenas tratar a dor quando ela surge, mas também reduzir o risco de situações que podem desencadeá-la ou agravá-la.
Prevenir infecções como dengue e chikungunya é uma forma concreta de evitar sofrimento e problemas de longa duração.
Em um país onde as arboviroses fazem parte da rotina, investir em prevenção hoje é também cuidar das articulações no futuro.
Vitor Cruz é reumatologista e coordenador da Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas da Sociedade Brasileira de Reumatologia
Fonte: Veja.































