Novas descobertas indicam que o Índice de Massa Corporal (IMC) convencional é limitado quanto a indicar o real risco de desenvolver doenças cardiometabólicas, isto é, que afetam o coração e o metabolismo do corpo. Em um novo estudo, pesquisadores observaram que o Índice de Massa Corporal (IMC) metabólico pode revelar risco até 5 vezes maior de doenças mesmo em pessoas com peso normal.
O IMC é um cálculo amplamente utilizado que divide o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros). O resultado enquadra a pessoa em uma classificação que vai de abaixo do peso (IMC menor que 18,5 kg/m²) até peso normal (entre 18,5 e 24,9), sobrepeso (de 25 a 29,9) e obesidade (acima de 30). No último estágio, há ainda uma divisão entre grau I (30 a 34,9), grau II (35 a 39,9) e grau III (maior que 40).
A pesquisa, publicada na revista científica Nature Medicine, mostra que um IMC metabólico alto está associado a um risco duas a cinco vezes maior de uma série de doenças e condições: fígado gorduroso, diabetes, obesidade abdominal, resistência à insulina e até mesmo prevê perda de peso insuficiente ou limitada após a cirurgia bariátrica.
O IMC metabólico desenvolvido pelos pesquisadores faz medições de centenas de pequenas moléculas no sangue que refletem o metabolismo celular. Essa medição fornece uma imagem muito mais precisa da saúde metabólica e do risco de doenças cardiovasculares de um indivíduo do que o IMC tradicional. Para isso, a equipe de pesquisa da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, analisou mais de mil participantes.
“Nosso metIMC revela um distúrbio metabólico oculto que nem sempre é visível na balança. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter perfis de risco completamente diferentes, dependendo de como seu metabolismo e tecido adiposo funcionam”, afirma Rima Chakaroun, pesquisadora da Academia Sahlgrenska da Universidade de Gotemburgo e primeira autora do estudo.
Outra descoberta fundamental do estudo é a associação entre o IMC metabólico (IMC-m) e a composição das bactérias no intestino, a microbiota intestinal. Pessoas com esse IMC elevado apresentaram uma microbiota intestinal com menor diversidade e menor potencial para decompor a fibra alimentar em ácido butírico, substância previamente associada à inflamação e ao aumento do risco de doenças.
“O IMC tradicional muitas vezes não identifica pessoas com peso normal, mas com alto risco metabólico. O metIMC pode contribuir para uma avaliação mais justa e precisa do risco de doenças, abrindo caminho para uma prevenção e um tratamento mais personalizados”, diz Fredrik Bäckhed, professor na Academia Sahlgrenska, Universidade de Gotemburgo.
Além disso, os pesquisadores destacam que os fatores genéticos são menos importantes para o IMC metabólico do que o estilo de vida e o ambiente.
“Os metabólitos que contribuem significativamente para a previsão do IMC metabólico são, na verdade, modulados ou produzidos pela microbiota intestinal, funcionando como uma espécie de indicador metabólico”, conclui Bäckhed.
Diretriz para risco cardiovascular brasileira
Em setembro do ano passado, organizações médicas brasileiras lançaram um documento no qual pedem que toda pessoa adulta com sobrepeso ou obesidade tenha seu risco cardiovascular avaliado de forma individualizada.
A recomendação é o uso do escore PREVENT, uma ferramenta de cálculo validada internacionalmente, que vai estimar a probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca nos dez anos seguintes.
De acordo com a nova orientação, será avaliado o risco cardiovascular de pessoas entre 30 e 79 anos diagnosticadas com sobrepeso ou obesidade. Além disso, pessoas com índice de massa corporal (IMC) inferior a 40, mesmo sem doença cardiovascular prévia, também serão avaliadas pelo escore PREVENT.
— Nós propomos que, além do peso corporal, sejam levados em consideração outros dados importantes do paciente, como pressão, perfil lipídico, índice de glicemia. Esses dados são colocados na calculadora PREVENT, um software feito pela The American Heart Association (Associação Americana do Coração). Com ele, conseguimos dizer quais são os riscos dessa pessoa sofrer um infarto ou AVC em até 10 anos — explica a endocrinologista Cynthia Valério, diretora da ABESO e uma das coordenadoras das novas diretrizes.
Segundo o documento, para pacientes com obesidade, especialmente com IMC acima de 35, o ponto de corte que deve acender um alerta para risco de insuficiência cardíaca, observado por meio de marcadores como NT-proBNP ou BNP (que indicam que o coração pode estar fazendo esforço) é de 50 pg/mL. Em pessoas sem obesidade, o valor de NT-proBNP que indica atenção é acima de 125 pg/mL.
O tratamento de redução de peso será guiado por números. Em casos menos graves, é recomendado que o paciente tenha uma redução de pelo menos 5% do peso. Já em riscos alto a moderado, a perda indicada passa para 10%.
Fonte: O Globo.





























